Feminismo e fascismo: contribuições da política das mulheres para a reflexão

por Paula Santana Nazarit y Andrea Franulic Depix

Tradução: Monalisa Gomyde
Revisão: Janaína Rossi

 

Há um apelo à unidade feminista para enfrentar a “cruzada fascista” que há já algum tempo tem sido travada pelos setores mais conservadores, não só no Chile mas em nível global, que acusam a “Ideologia de Gênero” de ser a força motriz por detrás daquilo que identificam como decadência dos valores tradicionais. Em Outubro deste ano, Judith Butler aparentemente exortou todas as feministas a se juntarem em causa comum contra a investida da direita e do fascismo (1), desafiando aquelas de nós que consideram a categoria “gênero” criticamente, pela forma como ela vem sendo utilizada pela academia e pelo feminismo de Estado: uma verdadeira “ferramenta dos Senhores”(Audre Lorde) (2).

No Chile, alguns dias após o referido artigo de Butler, foi gerada uma reação entre as feministas acadêmicas – face ao pedido de informação através da lei de transparência dos assuntos que abordam gênero, feminismo, “pessoas LGBTQI” através de declarações públicas, campanhas em redes sociais e artigos de opinião, alertas sobre estas medidas de intimidação vindas da direita, e apelo à união dentro do feminismo (3).

Este apelo à unidade soa mais como uma mensagem: “ou está comigo ou contra mim”. O desacordo político é suprimido, lançando uma sanção moral que bloqueia qualquer possibilidade de escuta e troca. Apela à inclusão no feminismo de todos os sujeitos oprimidos, especialmente pessoas transexuais, uma inclusão pois, sem fundamento, baseada na tradição assistencialista de inclusão em um determinado sistema, sem perceberem que, com este ato, invalidam essas pessoas como sujeitos políticos capazes de escapar à vitimização através da sua própria experiência e das suas próprias palavras.

“Diversidade” e “inclusão” são dois conceitos centrais no discurso neoliberal e colonial. Um neoliberalismo que se apropriou da proposta radical de que “O Pessoal é Político”, transformando-a num slogan vazio e vendável, onde tudo vai no sentido de satisfazer o desejo individual a serviço do qual o mercado, o Estado, a biomedicina, a indústria farmacológica, a indústria do sexo e a tecnologia estão todos a trabalhar. Desapareceu a profunda reflexão sobre o gênero como prisão para mulheres, e hoje em dia o gênero é reivindicado como uma identidade.

É o discurso que adota os ditames do mercado, da moda, do contexto hegemônico, agora disfarçado de “igualdade”, “inclusão” e “direitos humanos”. Um discurso que procura ultrapassar o pensamento livre sobre o patriarcado desde a política das mulheres e adota a censura masculina em seu interior. O transgenerismo está sendo imposto em todos os níveis com o forte apoio das instituições e uma forte contribuição financeira internacional (ONU, agências de cooperação), tornando-se o discurso oficial nas escolas, universidades, centros de saúde, meios de comunicação social, indústria cultural, política pública, etc.

As crianças que mostram desconforto e inconformidade com o GÊNERO atribuído a elas recebem “orientação” psicológica, psiquiátrica, médica ou social que as impele a negar o seu corpo sexuado, a sua diferença sexual e a origem materna da vida e da palavra, uma situação que afeta especialmente as pessoas mais precarizadas e vulneráveis, meninas, meninos e jovens “institucionalizados”, que são sujeitadas – elas/eles e suas mães – à validação estatal a fim de terem acesso a “benefícios”. Vemos como profissionais e funcionárias/os apresentam uma leitura única que coloca a transgeneridade como a única alternativa a este desconforto, forçando meninas a rejeitarem seus corpos e anulando assim qualquer questionamento das construções opressivas de gênero e da instituição da heterossexualidade obrigatória.

 As feministas que não acreditam na política de identidade são insinuadas ou diretamente insultadas ao serem comparadas a feministas “pró-vida” ou com a direita. O feminismo não pode ser fascista e, portanto, não validamos as cumplicidades, nem mesmo estratégicas ou circunstanciais, com aqueles que historicamente defendem um sistema social baseado na misoginia: a direita, uma distinção política no entanto cada vez mais sem sentido, num contexto em que o neoliberalismo é o projeto de todas as forças políticas institucionalizadas. Aqui não pode haver confusão. No entanto, isto não implica ignorar as nossas diferenças políticas, quanto mais desqualificá-las a priori, alinhando-nos com o andaime simbólico masculino.

Para nós, o que está em jogo não é um conflito ideológico, mas algo vital para a nossa existência. Trata-se de recuperar o valor do sentido livre de ser mulher e lésbica, de traduzilo na nossa língua materna (4) e cultura, porque é um caminho que consideramos necessário para que a violência de tantos homens contra as mulheres se torne impensável (5).

 

(1) Artigo de Butler (não foi encontrada tradução para o português): 

https://www.revistaposiciones.cl/2021/10/24/por-que-el-genero-provoca-tantas-reacciones-en-todo-el-mundo/?fbclid=IwAR2V-S7VcJPdmFM1PnwvtUNGjoitMx28sGFmpOfDKMpkea2S1Q2_BaABvLM
(2) Principalmente feministas radicais, feministas radicais da diferença e feministas autônomas.
(3) “ Nolite te bastardes carborundorum: es tiempo de solidaridad y articulación de resistencias feministas antifascistas”:https://www.elmostrador.cl/braga/2021/11/08/nolite-te-bastardes-carborundorum-es-tiempo-de-solidaridad-y-articulacion-de-resistencias-feministas-antifascistas/?fbclid=IwAR2kxtM_o_jp7soL-LuQEgj_J_g4QydLBexgOrl1BYgjwwyQDdu1Z1HNwyY

(4) A língua que aprendemos com a nossa mãe, ou quem quer que tome o seu lugar, na nossa primeira infância e que nos acompanha durante toda a nossa vida (Luisa Muraro).

(5) María-Milagros Rivera Garretas, 2019. http://www.ub.edu/duoda/web/es/textos/10/222/

 

Valparaiso e Santiago, Dezembro, 2021.

 

Assinam essa carta:

Sandra Lidid Céspedes (Autonomía Feminista, Cajón del Maipo, Chile)
Doménica Alejandra Francke-Arjel (Feminista Radical de la Diferencia, Chillán, Chile)
Diana González Alzate (Bogotá, Colombia)
Monserrat Maricruz Ruiz Herrera (Feminista Radical de la Diferencia, Tijuana, México)
Jessica Gamboa Valdés (Feministas Lúcidas, Santiago, Chile)
Carmen Martín Rojas (Feministas Lúcidas, Santiago, Chile)
Ana Mañeru Méndez (Madrid, España)
Kira Maldonado (Autonomía Feminista, Santiago, Chile)
Vania Villalón Zamora (RadicalAs, Valparaíso)
Natalia Riffo Quintana (RadicalAs, Valparaíso)
Valentina Alejandra González Fredes (RadicalAs, Valparaíso)
Adriana Alonso Sámano (Ciudad de México, México)
Maite Figueroa Aracena (Concepción, Chile)
María José Binetti (Women’s Human Right Campaign – Argentina)
Carmen Capdevila (Neuquén, Argentina)
Sandra Parra Valenzuela (Educadora popular, Valparaíso, Chile)
Tamy Imai Cenamo (Historiadora, Brasil/México)
Paula Quintana Meléndez (Valparaíso, Chile)
Natalia Ramírez Maldonado (Augere. Iquique, Chile)
Antonella Vaccaro (Valparaíso, Chile)
Coletiva Memória Lésbica (Brasil). Integrantes:
Janaína Marina Rossi
Monalisa Almeida Cesetti Gomyde
Ruana Piber da Rosa
Laira Rocha Tenca
Laila Maria de Paula
Elis Oliveira

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